quinta-feira, 12 de março de 2026




dia de amigos - dia de amigas - dia de compadres - dia de comadres


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 DIA DE AMIGOS  CELEBRADO   EM CASTANHEIRA DE  PERA  NO 12º ANO   DA SUA  RECUPERAÇÃO LOCAL (2015-2026)  


1| O atual «dia de amigos» deriva do anterior «dia de rapazes» que por sua vez remonta às Saturnais da Roma antiga a.C. Festividades de inverno (solstício) em honra de Saturno, deus das colheitas. Banquetes, troca de presentes, jogos, inversão das regras sociais, incluindo entre escravos e senhores. Num ambiente de alegria e liberdade controlada.  No séc. IV d.C., a Igreja procurou aboli-las, mas muito enraizadas na cultura romana, as Saturnais coexistiram com o cristianismo durante séculos. 

2| Dia de rapazes.  Até que, por volta do séc. XIV, se instituiu o «introito» (entrada) antes da Quaresma, uma espécie de acordo tácito:  a Igreja tolera, nesse período, alguns excessos, inversão social e sátira como forma de descompressão; em troca as comunidades cristãs aceitam cumprir a Quarta-Feira de Cinzas e a demais liturgia quaresmal. Desse «introito» resultou o Entrudo.  E foi nesse tempo de Entrudo que, durante os séculos XVI e XVII, surgem os dias dos rapazes, das raparigas, dos pais, das mães - rituais de diversão, irreverência e sátira, mas também de reforço da coesão familiar. O etnólogo Arnold van Gennep (1873/1957), no seu Manuel de Folklore Français, (T1/Vol.3), faz menção desses rituais e suas variantes na Europa, com a comuna Monêtier-les-Bains a celebrar nas mesmas quatro quintas-feiras do calendário, como se pratica nos Açores. 

3| Dia de amigos. Entretanto, com o liberalismo (séc. XIX), chegam ao poder as elites fidalgo-burguesas anticlericais, que logo procuram afastar a Igreja e moldar as tradições populares (secularizar os costumes) de acordo com a sua visão. a| Muda-se o “entrudo sujo” da rua (enfarinhamento, guichos de água) para um “carnaval civilizado” em salões, casinos, clubes (bailes de máscaras, cancã).  (Eça de Queiroz in «A Capital» (IX), retrata bem estas duas práticas no Chiado). b| Transforma-se o anterior formato familiar (rapazes) em dia de amigos, dia de amigas, dia de compadres, dia de comadres, de conteúdo laico. Do coletivo para o individual. Cada homem, cada mulher é que agora escolhe as suas amizades e o espaço da festa (restaurante, clube, hotel). Lazer, confidências, libertação. Esta transição foi rápida nos meios citadinos anticlericais, mas muito lenta nos meios rurais católicos, onde em muitos casos nem funcionou. c| Quanto aos compadres e comadres burgueses, eles aproveitam-se dos conceitos, mas esvaziam o conteúdo religioso para se assumirem como “amigos especiais”. Assim, com o liberalismo, passam a coexistir em Portugal dois tipos de compadrio: 1| o compadrio católico baseado no batismo, casamento e crisma; 2| o compadrio liberal (secularizado) assente nas redes de influência, alianças, interesses, favores, na “cunha”. (A propósito cf. «O compadrio em Portugal» de João Ribeiro-Bidaoui, (2023). 

4| Continente. Implantação e perda.   As primeiras tradições (rapazes) chegaram a Portugal continental e aos Açores via eixo europeu da Igreja Católica, movido a partir de Roma.  O segundo formato (amigos), via eixo liberal europeu, irradiando de Paris.  Ambos estão documentados no continente até meados do séc. XX. Mas com a desertificação dos meios rurais, sem transmissão intergeracional, foram-se perdendo no tempo. Também devido à opção continental pelos grandes desfiles de Carnaval nas avenidas. E bailes de salão. Ainda assim, não de todo, porque há núcleos de açorianos residentes no continente a celebrar com continentais e, nos Açores, há continentais envolvidos nas celebrações regionais. Tradição assegurada. 

5| Açores. Implantação dinâmica.  O que no Continente se perdeu, nos Açores ganhou força e identidade próprias.  Em toda a Região Autónoma, os jantares dos dias de amigos e de amigas esgotam espaços da restauração. E, nos dias de compadres e comadres, há celebrações caseiras ou «segunda volta» dos dias de amigos/as. Razões desta dinâmica: comunidades coesas, cultura de convívio, cidades e vilas acolhedoras. Inicialmente, poderão ter beneficiado da presença dos liberais na Terceira e São Miguel, durante cerca de três anos (1829-1832). Na imprensa regional, destaque para o valioso contributo do CAMPONEZ - Almanaque de Angra do Heroísmo, o livrinho de «mesa de cabeceira» que há mais de um século (desde 1918) mantém viva por toda a Região a chama das «quatro quintas»!  Tornou-se símbolo da autenticidade e identidade açorianas. 

6| Castanheira de Pera.  Desde o ano da recuperação local em 2015, afora dois da pandemia, sempre se tem realizado em Castanheira de Pera o jantar da Quinta-Feira de Amigos, na quarta semana anterior a terça-feira gorda, como manda a tradição. A edição deste ano, 2026 (10º jantar efetivo), teve lugar a 22 de janeiro, exatamente no mesmo dia e mês da 1ª edição em 2015, e, no mesmo acolhedor espaço no Alto do Carvalhal, onde agora se reuniram três dezenas de amigos em ambiente de harmonia, confraternização e amizade mútua. Amigos do quotidiano e amigos que o tempo afastara durante 10 e 20 anos. Amigos locais e amigos vindos de concelhos limítrofes e da região. Histórias de vida, memórias recordadas, alegria partilhada. E a encerrar o encontro, o lúdico ritual da assinatura da ata por «sobre Camponez bem informado».  Participar num jantar com o selo da Quinta‑Feira de Amigos, seja nos Açores ou em Castanheira de Pera, é presenciar a continuidade dum fio condutor modelado ao longo de séculos de história que atravessa civilizações, instituições religiosas e a força persistente das tradições populares. No próximo ano (2027) o Dia de Amigos tem data marcada para 14 de janeiro. Até lá, haja boas amizades, sempre em crescendo. A amizade é a música que embala a alma»!

                                                                                                                                                                     Francisco H Neves

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O RIBEIRA DE PERA

       

                                                                                       In  «O RIBEIRA DE PERA» edição impressa de 28 Fevereiro