domingo, 3 de maio de 2020









«A neve e a estrada de neveiros entre 
a Serra da Lousã e a Barquinha

Uma história inacreditável, mas autêntica»




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«VN Barquinha | “Apitos, assobios, guloseimas e até ‘bichas’ com a chegada da neve a Lisboa”, por Fernando Freire».
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O texto seguinte é da autoria do Dr. Fernando Freire, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História local, publicado no dia 2 de Maio de 2020 no jornal on line  medio tejo.net

  






Poço de neve do Coentral

Fotografia de João Almeida Fotografia - @joaoalmeidaphoto



«Os Filipes (de Espanha), que tanto nos levaram, deixaram pelo menos cá três modas: a dos trajes negros, a dos coches e a da neve...

Versa a presente crónica sobre esta última moda, “a neve”. Parece ser muito antiga, devendo-se possivelmente aos árabes a iniciativa de a comercializar.

“A neve vendia-se, então, nas ruas da capital à cabeça dos vendedores, homens ou mulheres. Apitos ou assobios anunciavam aos encalmados a refrescante mercadoria... o gosto de tomar neve fez-se moda. Água gelada, chiando nos pucarinhos de barro, era uma gulodice cortesã das tendas dos doceiros da Rua Nova da Confeitaria, da Rua do Saco, das antecâmaras do Paço e dos salões fidalgos. O fornecimento fazia-se de maio a setembro, mas os contratadores faltavam amiúde às obrigações tomadas. ... Em 1671, o neveiro, António Correia deixou de a vender. Era tanta gente que lhe assaltava a loja, que teve de vir um soldado guardar-lhe a porta para manter os compradores a respeito… desconfio que foi a neve que iniciou em Portugal a instituição da “bicha”. Já nesse tempo se usava gelo para tratamento de doentes com obrigação de fornecê-lo para o Hospital de Todos os Santos.

O sorvete, que foi uma glória do velho Martinho (da Arcada), já se apreciava igualmente...

Os sorvetes vendiam-se nem em copos ou taças de vidro como hoje, mas em xícaras. O limão era mais barato o de almíscar era caro, o de coral era caríssimo.” 1

Em Portugal, o ofício dos neveiros terá conhecido o apogeu durante o século XVIII, mas há notícia da atividade dos contratadores da neve desde os princípios do século XVII certamente devido à visita do monarca Filipe III de Espanha.

Outrossim, Tirso de Molina, autor dramático espanhol, que viveu de 1583 a 1648, referindo-se a Lisboa, compôs no "Burlador de Sevilha": nieve da serra da estrela que por las calles apitos puesta sobre las cabazas la vendem …”

Certo é que com a chegada dos Reis espanhóis ao trono de Portugal a moda de consumir neve pegou na capital do reino. A neve era a designação corrente para sorvetes, carapinhadas e outras iguarias do género. Mas também, decerto, para a conservação e refrescamento de outros bens de consumo do ser humano e utilização na saúde pública.

As Serras da Estrela e da Lousã, devido à sua localização, eram territórios de grandes nevões. Esta circunstância foi aproveitada no final do Séc. XVII e no Séc. XVIII, para no local proceder à sua recolha e armazenagem, com o objetivo de chegar ao consumidor final, à capital do Reino.

Depois da sua apanha, a neve, era comprimida em poços cobertos de xisto, covões abertos em fraguedos serranos, com uma porta voltada a nascente para que o efeito dos raios solares fosse diminuto sobre o designado neveiro. Toda a área de armazenamento era coberta com palha.

O responsável pelas infraestruturas locais de depósito da neve, conservação, manutenção e transporte da serra até aos portos do tejo, de Barquinha até Lisboa, era o Neveiro Real.




Lanches, Cerveja e Neve - Rua da Prata, Lisboa, Pastelaria Pomona



O gelo produzido na serra da Lousã (Coentral e em Santo António da Neve), era transportado, por via terrestre, em cavalgaduras ou carros de bois, e em barcos diários, os designados “barcos da neve”. Lembro que os transportadores tinham prorrogativas reais nas várias portagens e, inclusive, preferência nas travessias fluviais entre o porto da Barquinha e de Lisboa.

Na altura do calor a neve era fendida em grandes blocos, muito bem embrulhada em palha e isolada do calor exterior para que não derretesse pelo caminho.

“O gelo - amontoada em pequenos montículos será depois acartada em cestas, às costas, até ao poço de gelo mais próximo. Nada é deixado ao acaso, para que o gelo resultante seja da melhor qualidade. Limpo, cristalino e sem impurezas. Liberto de gostos e dissabores… Há que arrebanhar a maior quantidade possível de neve enquanto se mantém solta e límpida, e depois guardá-la naquelas cavidades profundas, onde será compactada até se transformar em gelo. Tapado por palha e fetos, o gelo permanecerá ali até ao final da primavera, início do verão, altura em que será então cortado em grandes blocos e transportado em carros de bois, pela serra, até Constância e Barquinha de onde embarcará, rio abaixo, desta feita até Lisboa, aos armazéns do Martinho da Arcada, e outros de menor nomeada, para deleite de senhores e senhoras”.2








Fotografia da Hemeroteca Municipal de Lisboa 


Face à procura do bem comercial gelo e às difíceis condições de acesso nas Serras da Lousã e da Estrela, os contratantes começaram a dar privilégio à Serra de Montejunto, às portas da capital. Em 1741, foi aí construída a Real Fábrica do Gelo para colmatar as falhas de fornecimento da Serra da Lousã e da Estrela. Quando chegavam os dias mais frios enchiam-se os tanques com água e esperava-se que, durante a noite, o frio a congelasse, formando o gelo. Posteriormente, era embalado e transportado por animais devido ao declive da serra. Quando existiam condições no relevo passava para carroças que o levavam até aos «barcos da neve», do porto da Vala do Carregado, e seguiria, via fluvial, até à capital do reino. A fábrica esteve em atividade até finais do século XIX.

A procura era imensa e apesar do “reforço” da neve da Serra de Montejunto muitas vezes, devidos às condições climatéricas dos anos mais quentes, ela escasseava ou esgotava na cidade de Lisboa.

Vejamos dois exemplos que recolhi: “Joaquim Coelho de Ataíde, arrematante do contrato do fornecimento da neve, participa ao público, que a mesma neve em rama está à venda desde o dia 13 do corrente mês de Maio no armazém n.° 290, da rua dos Ourives do Ouro junto ao Terreiro do Paço, e do mesmo dia a manufatura na loja de Bebidas do Rocio, conhecida pela denominação do Nicola, e se porá da mesma sorte à venda sobredito armazém da rua dos Ourives do Ouro do dia 21 do corrente mês em diante. Pede ao mesmo tempo a todos os Senhores, que carecendo de porção maior de arroba, fação aviso no sobredito armazém quinze dias antes, não obstante a condição do contrato ser de dez dias; por quanto tendo caído muito pouca neve na Serra desta Província, vem a ser indispensável fazê-la conduzir da Beira.” 3

“Os contratadores da neve previnem ao público, que no dia 25 do corrente Agosto acabou a venda do mesmo género, por motivo da sua colheita este ano ter sido muito escassa.” 4

Segundo a "Gazeta de Lisboa", vendia-se neve, em 1792, no botequim da "Casa da Ópera" da Rua dos Condes e, em 1793, também esse produto natural se vendia no Largo do Rato, na loja de José Rodrigues Ferreira. Já no século XIX, há várias alusões às lojas que vendiam neve, sorvetes e demais doces gelados ... Em S. Roque, vendeu neve o botequim do Tavares. No Rossio, eram servidos gelados na loja de bebidas do "Madre de Deus". E outros cafés e botequins, como o "Marrara", o "Minerva das sete portas", o "Toscano", o "Nicola" e o "Grego" venderam neve - uns desde o dia 1.º de Maio, outros desde o dia do Corpo de Deus, como se pode ver nos anúncios que então publicavam na imprensa. 5

Registos mostram que, em 1782, se vendia neve no Martinho da Arcada, que em tempos se chamou "Casa da Neve" por isso mesmo. Há outras notícias da existência em Lisboa de poços destinados a armazenar a neve. Houve poços no bairro da Graça e até a torre Norte do Castelo de São Jorge, do lado da Calçada de Santo André, sofreu obras para ser transformada em depósito de neve. 6





Movimento fluvial na Barquinha – Fotografia do Arquivo Municipal



Mas existiu uma estrada entre a Barquinha e Segade – Lousã?

No nosso território existiu a antiga estrada romana que ligava Scalabis (Santarém), Sellium (Tomar) e Conimbriga (Coimbra). Na crónica de Dom Fernando refere-se que o infante Dom João partiu um dia de Alcanhões, teria passado pela Cardiga, a caminho de Tomar, menção que confirma a existência de uma estrada que ligava ambos os termos. Depois de chegar a Tomar parte ele para Coimbra, passando por Espinhal, onde dormiu, Foz de Arouce (a 7 Km de Segade) e Almalaguez 7

Compulsando a legislação régia encontramos relatos de 10 de setembro de 1861, pág. 328, do Diário de Lisboa, onde é reforçada a verba para a manutenção da estrada Barquinha, Thomar, Miranda do Corvo e Foz de Arouce.

Em 1909, a estrada real n.º 51 ligava a Barquinha a Segade, e ali procede-se à construção de um lanço entre Semide e Pedreira, conforme imagem abaixo :


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Alexandre Herculano, nomeado comissário régio para a inventariação do património documental do País, disperso, abandonado e a saque nos cartórios dos extintos conventos, inicia a sua peregrinação no porto da Barquinha, no dia 14 de Junho de 1853. A comitiva faz-se a caminho a cavalo, como meio de transporte convenientemente indicado para o vencimento dos escolhos e dificuldades das localidades a percorrer. A comitiva quando chega à Lousã, desloca-se à serra, provavelmente em demanda de um conventinho ali perdido e é então que depara com os poços nas proximidades, destinados à recolha da neve.

“Dia 20 de Julho: Viagem à serra da Lousã. Ajunta-se a caravana na aldeia do Fiscal, nas faldas da serra. Vista cortada pelo nevoeiro para o norte. Passeio até à montanha da neve. Os depósitos – uma ermida; absurdo de um templo no cume de uma montanha. As duas montanhas estão unidas por uma lomba de onde nascem duas ribeiras em sentido oposto para poente e nascente e que divide os três concelhos de Lousã no noroeste e norte, o de Góis ao nascente e o de Figueiró ao sul e sudoeste. As montanhas só de mato rasteiro. Os poços de neve num recôncavo: como se vai derretendo em volta dos poços e dando uma fonte perene: como a apanham mulheres: chegou este ano em Fevereiro, a 14 pés de altura no recôncavo. É transportada em carros para a Barquinha. Modo singular de descerem os carros com mato do alto da serra: o juntar no barracão junto ao poço e o sorvete preparado ali.”  8

Segundo o mesmo historiador foi público até aos anos setenta, a presença de um marco da estrada de neveiros entre a Barquinha e Segade (Miranda do Corvo). Mais, precisamente, o 1.º marco perto da agência da Caixa Geral de Depósito (junto designado prédio do ferro de engomar) e o 2.º marco era presente antes de chegarmos à antiga cerâmica Moinho de Vento. Em tal documento físico estavam inscritas as distâncias e as designações das duas localidades.

Esta estrada real ou de neveiros, era igualmente frequentada para muitas outras atividades sem ser a neve. Lembro que o porto da Barquinha, nos primeiros anos do século XIX, tinha um enorme movimento comercial. Por ali passava todo o comércio que ia e vinha das Beiras para Lisboa e de Lisboa para as Beiras, pois as populações que ficavam entre o Zêzere e Mondego – por não haver ponte – faziam por este porto o seu comércio.

As mercadorias transacionadas eram, essencialmente, neve, madeira, sal, arroz, azeite, peixe, carne e tecidos de algodão.

Era tal o apogeu que só a exportação do concelho de Ourém para o porto da Barquinha “de azeite, aguardente e madeiras, era em transporte de carros e cavalgaduras, e o cálculo com respeito aos carros, às cargas, e seu valor, foi deste modo estimado com respeito à estrada, somente do Furadouro ou na direção da Villa da Barquinha, porto da via fluvial do Tejo mais frequentado. Passavam uns 50 carros por semana levando cada um termo médio 4 dúzias de tábuas de solho, dando resultado no ano, 2600 carros, com 10400 dúzias de tabuas, sendo o preço da venda de cada dúzia, 1$000 réis, é valor transportado do concelho para a Barquinha de 10 400$00 réis. Não é contada a madeira conduzida por outras estradas, ou seja, em direção à mesma Villa, ou para outra parte e a que é conduzida em cavalgaduras, etc.” 9

Naquele tempo, segundo factos históricos, entravam no nosso concelho milhares de carros de bois por ano, facto demonstrativo da pujança comercial de Vila Nova da Barquinha.

Verificamos no relato acima que só do Furadouro (Ourém) chegavam à Barquinha 2600 carros por ano. Deste movimento mercantil se socorreu o 1.º presidente da câmara da Barquinha, Manuel Henriques Pirão, nascido na Sertã, para em 1837, introduzir portagens à entrada da Barquinha cobrando 20 réis por carro de bois. Assim, equilibrou as finanças municipais e, com essa receita, construiu os Paços de Concelho da novel Vila.

Certamente muitas das pedras daquele edifício são resultado do esforço de muitos trabalhadores neveiros das povoações de montanha, bem como, de almocreves, arrais e marítimos.  

Com a introdução da refrigeração artificial, em meados do Séc. XIX, pararam as memórias e os movimentos regulares no tocante a tão frescas matérias naturais, entre outras, de sorvete de leite e de morango feitos à base de neve.

O passado ficou para trás. A estrada real n.º 51 Barquinha-Segade deixou de ser a de neveiros, mas quão agradável foi descobrir num marco de estrada à saída da Barquinha o testemunho dos nossos antepassados e a alma deste lugar que por força das circunstâncias me acolheu».


Poços de neve em Espanha e Itália




                                                                                  FERNANDO FREIRE 





Bibliografia 


·        1 Matos Sequeira, da Academia das Sciências. Feira da Ladra, n.º 1, 1931. 

·        2 Miranda, Emílio Gouveia. Os Autos da Barquinha - Gelo por sal, Edições Mahatma, janeiro de 2014


·        3 Diário do Governo, n.º 119, de 20 de maio de 1823  


·        4 Gazeta de Lisboa, n.º 201, Sábado 27 de agosto de Ano 1825, 
·        5 Machado, Herlander. Revista da Armada, n.º 93, 1979
·        6 Padilha, Cariana. A fábrica das neves, Jornal Publico, 12 de Janeiro de 2013
·        7 LOPES, F. Chronica de El-Rei D. Fernando, vol. II. Lisboa: Bibliotheca de Classicos Portuguezes, 1895
·        8 Roldão, António. A neve e o porto da Barquinha, Jornal Novo Almourol, n.º 389, Setembro, 2013

·        9 Elyseu, José das Neves Gomes. Esboço histórico do concelho de Vila Nova de Ourém, Typografia Universal, Lisboa, 1868».



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Trabalho da autoria do Dr. Fernando Freire, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local, publicado no dia 2 de Maio de 2020 no jornal on line :  medio tejo.net 









sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

DIA DE AMIGOS -  DIA DE AMIGAS 

DIA DE COMPADRES - DIA DE COMADRES



NO ÚLTIMO QUARTEL DO SÉC. XIX AS RAÍZES DO «DIA DE AMIGOS»


1). Calendário 2020 
  


O tempo de carnaval decorre entre o dia de reis e a quarta feira de cinzas.  Sabendo-se a em cada ano a data do dia de entrudo sabe-se logo a data destes eventos, porquanto ocorrem sempre nas quatro quintas-feiras anteriores. Em 2020 a terça-feira de entrudo acontece a 25 fevereiro. Logo, sucessivamente, temos:  30 janeiro dia de amigos; 6 fevereiro dia de amigas; 13 fevereiro dia de compadres; 20 fevereiro dia de comadres. Os dias de compadres e comadres são transversais a todo o território nacional. Deixemos. Vamos abordar o dia de amigos e o dia de amigas, datas que se vivem intensamente na Região Autónoma dos Açores, nas comunidades da emigração e em alguns núcleos continentais onde vivem açorianos ou continentais que aqui recuperaram a tradição, como é o caso de Castanheira de Pera desde 2015.  Normalmente ocorrem com separação de géneros. No dia de amigos só participam homens (Link 1). E no dia de amigas só entram mulheres, quer nos Açores (Link2), quer na emigração. (Link 3). Mas nem sempre assim foi, como é referido no flash RTP 2018.  A tradição açoriana é secular, mas a grande dimensão ora atingida é coisa recente.  A melhoria dos níveis de vida, as redes sociais e os novos espaços de hotelaria estimularam a dinâmica destes eventos.    


2). História 

O dia de amigos e o dia de amigas são tradições populares portuguesas, não oficiais, nem oficiosas. Documentadas nos Açores desde 1918.  Nada têm a ver com dias internacionais do amigo (30 de julho), da juventude (12 de agosto), da mulher (8 de março), da rapariga (11 de outubro), do homem (19 de novembro), que são datas políticas, de criação oficial posterior. Mas afinal qual a história do dia de amigos (as)?  A informação é escassa. Vamos cuidar do que temos.  E aguardar contributos.  


3). Não faz sentido  

Em alguns sites açorianos circula, maquinalmente, esta corrente:   

«Calcula-se que esta tradição tenha cerca de 100 anos. Em quase todas freguesias das ilhas as pessoas juntavam-se às quintas-feiras, conhecidas como noites de serões, para escolher o trigo e outros cereais que seriam utilizados nas comemorações do Espírito Santo, ao mesmo tempo que eram declamadas poesias e cantigas que falavam de amizade».  

Ora, salvo o devido respeito, afora o centenário, esta narrativa não faz sentido. A safra do trigo ocorre em junho / julho. É uma azáfama: segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado.  Os dias são grandes. Trabalha-se de sol a sol, não sobra tempo para serões.  Já a safra do milho ocorre em setembro/ outubro. É outra azáfama: segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado.  Aqui houve (na monarquia?) serões nas descamisadas. Serões animados, entreajuda, onde se ria, cantava, tocava, ceava. Mas as cantigas eram as do folclore continental e açoriano. Estão todas aí nos cancioneiros.  O «chi-coração» (abraços) resultava de se achar uma espiga vermelha.  E quanto a «falar de amizade», isso fala-se durante o ano todo, todos os dias da semana.  Mas pior a desconformidade: se a intenção dessas escolhas de cereais era o Espírito Santo - questão de Fé! - como é que tal sentido é depois tergiversado para o carnaval?  Admitindo-se que tais escolhas ocorriam à 5ª feira (?), ainda assim o nexo sempre seria com uma quinta-feira de Pentecostes, (Império do Livramento?) e não com uma quinta-feira de carnaval. E a amizade ao Espírito Santo? Até a «quinta-feira da espiga» é um dia religioso, (quinta-feira d’Ascensão) e na simbologia do ramo nem entra a amizade. Resumindo: uma perplexidade.  



4). O «Almanaque do Camponez» de 1918 explica.  

O «Almanaque do Camponez» de Angra do Heroísmo, (Ilha Terceira), fundado e coordenado por Manuel Joaquim Andrade, (1879/1961), logo no primeiro ano de publicação em 1918, já inseria estas datas e com anotações reveladoras.   

Anotação do dia de amigos de 1918: 
«Hoje é dia de amigos. Escolhe dois ou três, dos mais firmes, e organiza uma pandegazinha pacata, porque os tempos não vão para graças. Contas do Porto, isto é, quem comeu pagou. Amigos, amigos, negócios à parte».

Anotação ao dia de amigas de 1918: 
«Deixa lá as raparigas umas com as outras, porque elas têm confidencias a fazer, sobre cousas de que tu não percebes nada».

Anotação ao dia de entrudo de 1918: 
«Acaba com o resto da linguiça. A dona da casa que faça fatias em abundância e depois de teres o papo cheio sai para a rua e enfarinha as raparigas. Anda-me com elas». 

Quanto as «confidencias» femininas ainda hoje se mantêm. E quanto às «contas do Porto» ainda hoje se praticam.  Está tudo nos vídeos supra. Quanto às «graças». «Os tempos não vão para graças» … Pois não. E assim continuariam por várias décadas: a pneumónica de 1918, as mazelas da 1ª guerra mundial, a 2ª guerra mundial, a guerra colonial, a descolonização, o sismo de 1980 (grupo central) e os anos da reconstrução foram realmente tempos difíceis. Não azados a celebrações.  Aliás, difíceis já vinham os tempos dantes de 1918. Apesar da revolução liberal de 1820, a escravatura em Portugal só foi abolida por Decreto de 25/2/1869 e, mesmo assim, com efeitos diferidos a 29/4/1878. Abolida a escravatura, permaneceu no terreno uma servidão de facto, mormente sobre as mulheres. Ainda está presente em memória coletiva as «criadas de servir», recrutadas nos meios rurais pobres, crianças desviadas das escolas primárias, para servir em «casas das senhoras», a tempo inteiro, praticamente pela côdea, quantas vezes sujeitas à grosseria das «senhoras», quiçá dos «senhores».  Esta sujeição feminina vinda da monarquia, atravessou a I República e só se começou a inverter em pleno Estado Novo com a execução do «Plano dos Centenários», (1940/1960), com milhares de escolas primárias construídas ou remodeladas por todo o país. (BNP = SA 5401/9 A).  Mas apesar haver escolas, o analfabetismo mantinha-se elevado. Em 1960 é decretada a escolaridade obrigatória efetiva até à 4ª classe para ambos os sexos, (DL nº 42994 de 28/5/1960). Com a GNR por montes e vales a retirar as crianças do trabalho infantil e encaminhá-las para a Escola.  Em 1964 é decretada a ampliação da escolaridade obrigatória para seis anos, para ambos os sexos, (DL 45810 de 9/7/64). Em 1968 são criadas e começadas a instalar por todo o país as primeiras mais de cem (100) escolas preparatórias do ensino secundário, (Portaria 23.600 – I Suplemento «DG» nº 213 - I Série, de 9/9/68). Ensino preparatório este dotado de auxílios económicos aos alunos carenciados. Entretanto, à retaguarda, eram instituídas as pensões sociais do Prof. Marcello Caetano, (DL 277/70 de 18/6/70). Assim começou a demorada inversão da sujeição feminina. O caminho foi longo e penoso. Outras reformas sociais e educacionais se seguiram nos últimos cinquenta anos.  Tornou-se possível converter a moeda «avós sujeitas à servidão» em «netas com formação universitária». E com assim enriquecer a amizade, bem expresso neste flash TVI 24, com mais de 1300 mulheres celebrando o seu «dia de amigas»! Ano 2018. (Link 4). 


5). Centenária.  

A principal lição a extrair do «Almanaque do Camponez» 1918 é que a tradição nos Açores é realmente centenária! Aritmético. Prova documental plena. Acresce que «O Camponez» /1918 faz mais duas revelações: 1) Ao inserir em anotação o «conteúdo» de cada data, o autor revela que as festas já vinham de anos anteriores.  2) E ao inserir o conceito de «pandegazinha», o autor abre aqui uma janela para o mundo pandego do último quartel seculo XIX, (1875-1900), onde afinal se encontrarão as raízes do atual «dia de amigos». 
Mundo pândego (pândega, pandegazinha, pândego) tão bem retratado pelos autores realistas / naturalistas como Eça de Queiroz (1845-1900), in «O Crime do Padre Amaro» (1876), in «O Primo Basílio» (1878), in «Tragédia da Rua das Flores» (1878), in «Os Maias» (1888), in «A Ilustre Casa de Ramires» (1900). E sobretudo in «A Capital» (1900), onde as referências são mais de duas dezenas. E como Aluízio de Azevedo (1857/1913) in «O Mulato» (1881).  Autor brasileiro, abolicionista, natural de São Luís (Maranhão), mas filho de diplomata português ali em exercício. Revela conhecer os costumes dos portugueses ali radicados. (Seguimos a edição 2010, Martin Claret - SP. (ISBN 978-85-7232-518-9). Vamos recuperar algumas imagens dessa pandegaria, cujo contexto é geralmente conhecido: («Pandegaria» em gramática é um substantivo derivado por sufixação nominal, como livraria, padaria, papelaria, escritaria).  
  

1. (Eça de Queiroz). «Aquelas ceias de Vila Clara, as tresnoutadas pândegas com violão, impressionavam sempre Barrolo, que as apetecia» … «Rapazes amigos».
2. «Devia estar no Lawrence, porque só com raparigas e em pândega é que o Sr. Dâmaso vinha para o Nunes».
3. «Virem a Sintra, para questões e amuos, isso não! Naquelas pândegas queria-se harmonia, chalaça e gozar. Coices não. Então ficava-se em Lisboa que era mais barato».
4. «Ramalhete” …. “Rapazes» ….  «Mulheres, não há quem as receba».
5. «Havia de ser divertido teu sogro. Tem cara de pândego! …».
6. «Tornou a encher o copo. Achava aquilo «uma pandega».
7. «Conselheiro Acácio» …. «Jantar de rapazes» …  «Meus amigos».
8. «Casa pasto tio Osório…  «Oh João! … «Com repentes, com vinho desordeiro, não havia pândega, nem sociedade, nem fraternidade!».
9. «Estava farta de sentimentalidade. Queria alguma coisa alegre! Uma música pândega…».
10 «Se estivesses aqui no Verão (Sintra) tu verias. Piqueniques, o (Lawrence) cheio, cavalgadas a Cascais, representações… É uma pândega».
11. «…  isto é bom, quando está quente, quando há cavaqueira!  No Verão é uma pândega».
12. «Madame… estava de humor cão!... Em Lisboa é pândega, canta…».
13. «Que grandes pândegas. Que patusca espécie de mulheres!».
14. «O amigo nunca esteve em Lisboa?… Então não sabe o que é a pândega»!
15. «Rabecaz … tinha preparado uma carta … para o pândego do Melchior».
16. «… o amigo Artur… quer conhecer a rapaziada literata… e encher o ventre da bela pândega».
17. «No fim para que se estava neste mundo? Para gozar, ter amigos, alegres, um bom jantarzinho, uma pandegazinha, umas mulherzinhas de vez em quando. E para isso não havia como Lisboa».
18. «… Sarrotini? É o segundo-baixo de São Carlos…  Grande pândego!».
19. «E depois há o prazer do jantar… Veja você o que nos temos divertido hoje. E então estando a rapaziada! São anedotas, chalaças, saúdes, uma pândega imperial».
20. «Hotel Universal …. «Jantar de rapazes» …. Fim (oculto) apresentar Artur Corvelo à «rapaziada literata». «Melchior (localista), Artur (romântico), Meirinho (videiro), Xavier (folhetinista), Cordeiro (ator), Padilhão (socialite), Sarrotini (barítono), Saavedra (o Século), Roma (poeta), Carvalhosa (deputado), Moura (tio Melchior), oficial de Lanceiros, guarda-livros”. Treze? Vem o Sr. Galinha. (13+1=14) …. «As ostras!» …. «Oh rapazes por quem sois!».
21. «D. Joana Coutinho» … Soirées …. Terças-feiras ecléticas …. Rapazes …. Raparigas …valsa».
22. «Grande patuscada! Tudo sossegadinho, sem desordens, sem troça, em boa amizade. Ceiazinha rica e belo fado! Enfim uma noitezinha cheia!». (Melchior para Artur).
23. «Não havia para o regalo do corpo e da alma como uma boa pandegazinha no Dafundo».
24. «Hoje sábado é o dia da pandegazinha…sílfides aceitam…Às 9h lá vou buscá-lo hotel».
25. «… para mim…  pândegas consigo acabaram».
26. «… que isso de pandega sem animação era dinheiro deitado à rua!».
27. «Tenho feito muitas pândegas com ele… No tempo do Sr. Visconde. Hem?».
28. «Hotel Dafundo…chinfrim… raparigas assustadas… volta para Lisboa… «Só começou a tranquilizar-se quando a tipóia rolou pela Rua do Ouro. Era uma pândega estragada».
29. «…vinha… de tarde… trazendo um espalhafato pândego àquele quarto amodorrado».
30. «Melchior… achava que não havia nada como «a pandegazinha ali à cachucha…»
31. «…na excitação do champanhe, juraram… sociedade pândega: Artur, Concha Cª».
32. «… não pode vir». «Estava no quarto da Mercedes em grande pândega».
33. «Domingo gordo… Rua Nova do Carmo….  cheia de gente… «Cartuchos de farinha estalavam… poeirada branca, revoadas de feijões estralejavam sobre os chapéus; sujeitos enfarinhados…». … «Eh seu Artur! Eh pandegazinha
34. «Terça-Feira de entrudo…Chiado… enfarinhamento pândego…pessoas da «primeira sociedade … ver as cancanistas ao Casino…  «Multidão de paletós…chapéus altos… dorsos curvados numa curiosidade sôfrega em volta do cancã. … as francesas… quatro… saracoteava-se… concupiscência burguesa… gingar frenético dos quadris…   bacante … grogues… conhaque…  champanhe. «Hen! meu amigo, bela pândega… E queria você ir para Oliveira de Azeméis!».
35. «Bazílio tinha sido … um «pândego», passara por … clássicos da estroinice lisboeta».
36. (Aluízio de Azevedo). «Raimundo… matriculou-se em Coimbra… sentiu-se bem dentro da romântica batina de estudante, meteu-se em pândegas com colegas…».
37. «D. Amância Souselas, velha de grande memória… conhecia todo o Maranhão… detestava o progresso… a máquina de costura…a leitura de jornais…a indecência do piano… a iluminação a gás….  «Dantes, os escravos tinham que fazer!... E hoje? É só chegar o palitinho de fogo à bruxaria do bico de gás e… caia-se na pândega!... Andam descarados… Chicote! Chicote até dizer basta».
38. «José Roberto… «seu Casuca» … cantava ao violão… «Gostava das serenatas, das pândegas com moças; pilhando dança…».
39. (Jantar do dia de São João, na Quinta de Maria Bárbara, um «sitio» no Maranhão.  Convidados… música… festa animada… conhaque… charutos… licor… dançara-se … sertanejo… «Pois não há como uma festa no sítio – dizia Sebastião por outro lado – Isto de pândegas, ou bem que é pândega ou bem que não é».  «Chamaram para a mesa… «O patrão, um; senhor cónego, dois; D. Maria do Carmo, três; as duas sobrinhas, cinco; o Dr. Raimundo, seis; seu Freitas e a filha, oito; D. Eufrasinha, nove; seu Serra e aquele moço, o Faísca, onze; o Dias e a D. Anica, treze ao todo».  Treze! Saia um!… ou venha outro… Venha o Casuca».   (13+1=14).
40. «Eram músicos de contrato, pândegos afeitos às serenatas. Violão…flauta…pistão… rabeca»
41. «Noite… silêncio… «Na rua grupos pândegos passavam em troça para o banho de São João.»
42. «O José Roberto afastara-se também e vivia por aí na pândega».  (Sublinhados nossos).

Edição «Livros do Brasil». 1)«A ilustre Casa de Ramires», Cap. IV/97, X/296.  | 2) «Os Maias», Cap. VIII/225. | 3) «Os Maias», Cap. VIII/230. | 4) «Os Maias», Cap. IV/107. | 5) «O Primo Basílio», Cap. V/163. | 6) «O Primo Basílio», Cap. V/165. | 7) «O Primo Basílio», Cap. XI/326. | 8) «O Crime do Padre Amaro», Cap. XIV/270. | 9) «Tragédia da Rua das Flores», Cap. III/58. |10) «Tragédia da Rua das Flores», Cap. IX/205. | 11) «Tragédia da Rua das Flores», Cap. IX/206. | 12) «Tragédia da Rua das Flores», Cap. XI/210. | 13) «Tragédia da Rua das Flores», Cap. XI/265. | 14) «A Capital», Cap. 1/59. |15) «A Capital, Cap. II/102. | 16) «A Capital», Cap. III/127 | 17) «A Capital», Cap. III/129. | 18) «A Capital», Cap. III/140.  | 19) «A Capital», Cap. IV/165. | 20) «A Capital», Cap. IV/172.  |21) «A Capital», Cap. V/203 |22) «A Capital», Cap. VI/231. |23) «A Capital», Cap. VI/232. |24) «A Capital», Cap. VI/237. |25) «A Capital», Cap. VII/259. |26) «A Capital», Cap. VII/277. | 27) «A Capital», Cap. VII/278. | 28) «A Capital», Cap. VII/280. |29) «A Capital». Cap. VIII/295 | 30) «A Capital», Cap. VIII/301 |31) «A Capital», Cap. VIII/316 |   32) «A Capital», Cap. VIII/323. | 33) «A Capital» Cap. IX/336; | 34) «A Capital», IX/345. | 35) «O Primo Basílio», Cap. IV/116. | 36) «O Mulato», Pág. 63 e 64. |37) «O Mulato», Pág. 68 e 69. | 38) «O Mulato». Pág. 76 e77. | 39) «O Mulato», Pág. 125/131.! 40) O Mulato», Pág. 143. |41) «O Mulato», Pág. 149 | 42) «O Mulato» Pág. 246».
  

Ora, terá sido nesta envolvência pândega, neste «tronco pândego» - figura metáfora - que entronca a pandegazinha que habita no «Almanaque do Camponez de 1918». Eça de Queiroz, Aluísio de Azevedo e Manuel Joaquim Andrade, cada um à sua medida, consignaram na escrita aspetos da vida social que a todos envolvia.   A pândega é uma festa muito animada de comes e bebes. Aliás, ainda hoje no «Mundo do Sítio» se enfatiza o carnaval como uma animada pândega! (Link 5).  



6). Desdobramento do dia de compadres. 
    Em desconforto nos compadres a «rapaziada» incorporou-se na pandegaria

Ao longo do século as motivações para a instalação do «dia de amigos» podem ter sido as mais diversas. Porém, no início, temos que o «dia de amigos» terá resultado do desdobramento do dia de compadres. Durante a monarquia absoluta e igreja católica ultramontana, no «dia de compadres», em rigor, só caberiam compadres estritos (via batismo ou matrimónio (afinidade). Porém, no liberalismo, compadres mais liberais terão convidado alguns amigos para o bródio caseiro. Só que isso tinha inconvenientes:  os amigos sempre teriam o estatuto de convidados e como tal se haviam de conter; os amigos de uns nem sempre são amigos de outros, o que pode ocasionar desconforto; sendo ainda que à saída alguns amigos carregavam a obrigação social de retribuir. Ora terá sido para obviar a tais constrangimentos que «a rapaziada» se autonomizou dos compadres, criou a sua própria pandegazinha que posicionou numa quinta-feira anterior. E assim terá nascido a «quinta-feira de amigos» ou «dia de amigos». E, por analogia/simpatia a «quinta-feira de amigas» ou «dia de amigas». Realmente, o carnaval é tempo de alegria, diversão, libertação, alguns excessos até, livre de constrangimentos. E de preferência num espaço de acesso público, ainda que reservado, onde cada um paga a sua parte, nada ficando a dever a outrem.  Seja no «Bragança», no «Universal», na «taberna do Gago» em Vila Clara, ou na «taberna do tio Osório» em Leiria.  Desta liberdade a grande expansão alcançada pelos amigos. Enquanto o caseiro «dia de compadres» foi decaindo. E hoje está quase convertido numa «segunda volta» do dia de amigos, «compadres» de ocasião. Na essência do «dia de amigos» também está a convicção mútua de que «Um amigo fiel é um bálsamo de vida». E que o «dia de amigos» é a festa da amizade do grupo. Como um aniversário. Por isso se cultiva!   

Espaço. Face a centenária tradição, o dia de amigos é tido como uma originalidade açoriana. São conceitos distintos. Centenária é de certeza, documentada desde 1918. Já quanto à criação (desdobramento ou ato equivalente) afigura-se tarefa não fácil de conferir. No continente também houve lugares onde se festejaram as mesmas quatro quintas-feiras.  Agora o que se poderá dizer é que a conhecida envolvência dos Açores (desde 1829) nas lutas liberais e, depois, essa força mítica que impulsionou a tradição até ao centenário são valores compatíveis com uma originalidade açoriana.  



7). Blogue «Animus Semper» | Blogue «Vilar Maior» 

Nas obras de Eça de Queiroz o conceito de «rapaziada» é de uso recorrente e intenso, mormente in «A Capital». Também os conceitos de «rapazes» e «amigos» andam sempre lado a lado. Um coloquial, outro mais terno, mas as pessoas são as mesmas. Exemplo: O «Conselheiro Acácio», aquando da condecoração («Grau de Cavaleiro da Ordem de Sant’Iago») ofereceu um jantar a cinco convidados (Jorge, Julião, Sebastião, Coutinho, Saavedra), que qualificou de «jantar de rapazes», mas que repetidamente trata de «meus amigos», (1878). |  O jurista Joaquim Nogueira, nascido em 1933 (86 anos), relata no blogue «Animus Semper», que na sua infância / juventude e na sua freguesia de Várzea dos Cavaleiros – Sertã, também era costume a celebração das quatro quintas-feiras: «quinta-feira de rapazes, quinta-feira de raparigas, quinta-feira de compadres e quinta-feira de comadres». (Link 6).  Celebrações simultâneas com as açorianas. As mesmas datas, quiçá as mesmas raízes.  Acontece que os Açores preservaram estas tradições, como coisa sua, ao longo do século. Com o «Almanaque do Camponez» ano a ano, através de quatro gerações, a manter sempre viva a chama da Amizade! Um tesouro! Enquanto no continente, com a deslocação das gentes dos campos para as cidades, as tradições, onde as havia (em data certa) foram caindo em desuso.  E não se encontra hoje uma «folha» que as tivesse registado para memória futura! Ainda assim, há indicadores de que as pândegas para homens (como no dia de amigos) e piqueniques para mulheres (como no dia de amigas) as houve quando circunstâncias da vida o permitiam. Caso de Vilar Maior / Sabugal, como relata e documenta o Prof. Júlio Marques no blogue «Vilar Maior, minha terra, minha gente». (Link 7).  


8). As cancanistas francesas   

Nos últimos anos nos Açores, em alguns lugares das celebrações, quer de amigos, quer de amigas, a animação da festa passou a incluir shows de «striptease». | Também já antes de 1900, por ocasião do entrudo, cancanistas francesas saracoteavam no Casino Lisbonense, perante a sôfrega curiosidade burguesa. (Neste link uma aula e alguma história da dança: link 8).  Outro motivo de carnaval nas ruas do Chiado era o «enfarinhamento pândego» dos transeuntes.  Aplicação presente na generalidade do país e também em Angra do Heroísmo e Várzea dos Cavaleiros. O edifício do Casino Lisbonense ainda hoje existe ao Chiado, no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, próximo do Teatro da Trindade. Aqui também tiveram lugar as «Conferências Democráticas do Casino» (1871), coordenadas por Antero de Quental.    


9). Dia de Amigas.    

As primeiras mulheres que saíram de «casa» para o «campo», rumo à emancipação, viveram também no último quartel do sec. XIX. Casos de D. Antónia Adelaide Ferreira, «Ferreirinha», (1811/1896), empresária do Douro, produtora e exportadora de vinho do Porto; Guiomar Torresão, (1844/1898), escritora, tradutora, ativista feminina; Rosa Damasceno, (1845/1904), atriz de teatro, com uma digressão ao Brasil em 1892; Maria Amália Vaz de Carvalho, (1847/1921), escritora, poetisa, ativista feminista, a primeira mulher a entrar na Academia das Ciências de Lisboa;   Beatriz Angelo, (1878/1911), médica feminista, republicana, a primeira mulher a votar em Portugal (1911).  Mas eram mulheres oriundas das classes altas e intermédias. Nas classes populares a emancipação foi mais lenta e demorada.  A única pândega para toda a família ocorreu num sítio (quinta) em São Luis do Maranhão. Em Portugal as «pandegas» eram coisa de homens. E quando entravam mulheres eram sílfides acompanhantes.  Durante muitos anos o «dia de amigas» terá sido mera data de calendário.  Muito diferente da plenitude atingida neste sec. XXI.  Mérito de Amigas!



10). Conclusão:  

As celebrações do «dia de amigos» e do «dia de amigas» nos Açores, nas comunidades da emigração e núcleos continentais constituem ramificações vivas de um tronco pandego comum, com raízes em todo o território nacional desde o último quartel do séc. XIX e a convicção de que «Um amigo fiel é um bálsamo de vida». 



Francisco H. Neves

1.      Dia de Amigos
2.      Dia de Amigas
4.      1300 mulheres 
5.      Mundo do Sítio 
6.      Animus Semper 
7.      Vilar Maior
8.      Can-Can  
9.      O Mulato 






in O RIBEIRA DE PERA  edição impressa de 31/12/2019


sábado, 6 de julho de 2019





Viagens ao Seminário Maior de Coimbra





Universidade - Jardim Botânico da Universidade - Seminário Maior 

Monsenhor Cónego Aurélio de Campos 


1.Localização

Situado num lugar algo recolhido, mas com vistas largas para o mundo é assim o Seminário Maior de Coimbra. Haverá, porventura, gente que ainda não apreciou a beleza arquitetónica da frontaria de «um dos monumentos mais grandiosos levantados na cidade» de Coimbra (1748 - 1765), simplesmente por não se saber onde fica…

Então haja como referência a Torre da Universidade de Coimbra, a sua Porta Férrea e em redor os edifícios das faculdades, (Link 1). Descendo alguns metros até aos «Arcos do Jardim», («Aqueduto de São Sebastião»), eis aí o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, com os seus 13 hectares de terreno, o gradeamento, os vários portões de acesso. (Link 2). Ora, o portão principal de acesso ao Seminário Maior de Coimbra fica exatamente em frente do portão de saída (sul) do Jardim Botânico (portão 5). Avistam-se mutuamente. Temos assim na «Alta Universitária de Coimbra», um mapa académico constituído por três espaços seguidos: Universidade de Coimbra (polo I) - Jardim Botânico da Universidade - Seminário Maior.  
(Google eart.  Google mapas). 



2. Visita guiada

As visitas guiadas ao Seminário Maior de Coimbra são enriquecedoras.  Logo à chegada o visitante depara-se com a beleza e magnitude da sua frontaria. Depois, dentro da sumptuosa construção, arquitetura italiana, com pisos em quadrado percorrem-se, na parte aberta ao público, amplos corredores, escada em caracol, aposentos episcopais, varandas, biblioteca velha, salas de aula e de actos, capelas, a Igreja da Sagrada Família com o seu órgão histórico (restaurado em 2005 por um organeiro de Ponta Delgada), móveis, alfaias litúrgicas, imagens de santos, relíquias seculares, pinturas, quadros. E o refeitório com púlpito de antiga função. Já no exterior as vistas panorâmicas, os edifícios laterais, entre estes o da biblioteca nova. Apesar da paragem (2012) da missão específica (curso teológico) o Seminário Maior de Coimbra mantém-se vivo e aberto: reitoria, apoio a teólogos (mestrandos e doutorandos), bibliotecas, eucaristia semanal, exposições, colóquios, conferências, concertos, formação de leigos (ministérios laicais), música sacra, retiros, visitas guiadas, página eletrónica (Link 3).



3. Livro «SEMINÁRIO DE COIMBRA  – subsídios para a sua história»

Mas também se podem fazer visitas guiadas, continuadas, ao Seminário Maior de Coimbra, através das páginas deste notável volume da autoria de Monsenhor Cónego Aurélio de Campos, cuja publicação ocorreu após cessar a missão de Reitor do Seminário Maior de Coimbra, que durante treze anos (1997-2010) cumprira.

Livro que é um monumento descrevendo outro monumento. Onde se faz a história do Seminário Maior de Coimbra desde a construção (1748-1765), abertura (28/10/1765), paragem do seu curso teológico, (16.9.2012), até ao fecho da edição (2014).  Onde se detalha o governo dos vários Bispos da Diocese, desde o fundador (do seminário) D. Miguel da Anunciação (1741-1779) até ao atual, D. Virgílio do Nascimento Antunes (2011- ). A listagem de todos os reitores, vice-reitores, diretores espirituais e professores que serviram a Igreja neste Seminário. E o rol dos 34 bispos diocesanos que, antes da sua ordenação episcopal, se formaram ou serviram neste Seminário de Coimbra.

São mais de 250 anos de História. Percurso com alguns tempos difíceis: Os 8 anos, 2 meses e 15 dias de prisão do Bispo Conde D. Miguel da Anunciação (8.12.1768 - 23.2.1777). O liberalismo na Diocese: o exílio do Bispo no Brasil (17 anos), os Vigários Capitulares e o Cisma Diocesano (1824 - 1852). A implantação da República e a lei da separação de 20.4.1911. Mas também com tempos áureos: A construção (1748-1765) e a inauguração do Seminário da Sagrada Família de Coimbra (28.10.1765). A nomeação de Governador do Bispado de D. Manuel Correia de Bastos Pina (1.1.1865), a Sagração Episcopal, (19.5.1872) e toda a sua ação pastoral (1865 - 1913). Os episcopados de D. Manuel Luís Coelho da Silva, D. António Antunes e D. Ernesto Sena de Oliveira (1915 - 1967). Tempos estes e outros, nos dois sentidos, desenvolvidamente tratados.

No Seminário de Coimbra ocorreu em 16.9.2012 a paragem da bicentenária missão específica de formar para o sacerdócio. Mas a esperança ficou. «Que a esperança do dia luminoso que há-de vir nos alente na escuridão da hora presente», (pag.373).

Bispo Conde. Uma nota. Durante séculos, todos os bispos de Coimbra usaram o título honorífico de «Bispo Conde». A origem remonta ao Sec. XV, quando D. Afonso V, (1438-1481), por carta de 25/9/1472 decretara «de jure que Dom Joam Galvão, bispo de Coimbra, e todos os seus sucessores, bispos de Coimbra, sejam e se chamem e intitulem Condes da Villa de Arganil, in perpetuum».  Todavia, o título caiu em desuso perante os princípios orientadores do Concílio Vaticano II, (1962-1965).  D. Ernesto Sena de Oliveira (1948-1967), 60º Bispo de Coimbra, foi o 25º Conde de Arganil e o último a usar o título o «Bispo Conde». Título que caiu em desuso, mas que se mantém na esfera dos bispos de Coimbra.  (Pág. 102 e 277).

«Seminário de Coimbra – Subsídios para a sua história» é uma obra enciclopédica da autoria de Aurélio de Campos. Um volume com 435 páginas, impressão a cores, papel couché 170 g, formato 22,5 x 26.  Edição do Seminário Maior de Coimbra. 
Ano de 2014. Depósito legal 381766/14. ISBN 978-972-96869-2-4. 



4. Livro «TRAÇOS DE UMA VIDA  (memórias e reflexões pessoais)»

Este é outro livro, mais recente, também da autoria de Monsenhor Cónego Aurélio de Campos. Um livro dividido em cinco espaços. Donde respigamos: no primeiro oração de louvor, fases do discernimento vocacional, importância do diretor espiritual, maravilhas reconhecidas. No segundo as origens (freguesia de Fajão), o seminarista, o reitor, as comunidades onde serviu. As férias, as viagens, («cada viagem é um livro que se lê»), o ano sabático, os cursos de formação, as cinco peregrinações à Terra Santa. O terceiro espaço é dedicado à família, genealogia, amizade e desporto. No quarto espaço cópia de vários documentos pessoais, dentre estes o decreto diocesano da sua nomeação de Cónego da Sé de Coimbra (11.8.1999) e o diploma do Vaticano de 9.2.2011 em que o Papa Bento XVI lhe concede a dignidade de Capelão de Sua Santidade (Monsenhor). E por fim, no quinto espaço, algumas «sépias» de pinturas, gravuras, desenhos, incluindo-se aqui a Torre da Igreja Paroquial de Castanheira de Pera.  Breve biografia encerra.

Castanheira de Pera foi a comunidade em que o Padre Aurélio de Campos durante mais tempo servira, (17 anos, 13/11/60 a 19/1/78). Dedica-lhe várias páginas neste livro. Tempo em que o concelho tinha uma população de 5.739 habitantes (censo de 1960). Para além da sua intensa atividade pastoral é de realçar, além do mais, a sua ação no âmbito do ensino privado, em que foi cofundador (1961), professor e diretor durante anos do Externato São Domingos e coordenador da construção do novo edifício, que depois transitou para o Estado. No âmbito do ensino oficial o Pe. Aurélio procedeu à tarefa de instalação no terreno da Escola Preparatória Dr. Ulisses Cortez, (1969 e seguintes), cuja criação tivera lugar em 1968, pela Portaria 23.600, conforme referido em nossa «Fraga» anterior.   

«Traços de uma vida (memórias e reflexões pessoais)» é um livro que se lê e relê com inteiro agrado, como de inteiro agrado eram as suas aulas! 

Com 283 páginas. Formato 16 x 23. Edição do Autor. 
Coimbra 2018. Depósito Legal nº 449378/18.  ISBN 978-989-20-9094-8.

O Padre Aurélio reside atualmente na Casa de São José, (Lar do Clero), junto do Seminário de Coimbra. (Contacto Google: Anuário Católico. Aurélio de Campos).




5. Externato São Domingos

Seria interessante e gratificante, a breve trecho, uma iniciativa dos antigos alunos do Externato São Domingos de Castanheira de Pera, no sentido de se organizar uma especial visita guiada ao Seminário Maior de Coimbra, conduzida pelo próprio Padre Aurélio de Campos,  que é hoje em Coimbra o homem que  mais sabe e melhor conhece o Seminário Maior. E é sempre com carinho e alegria que ele contacta gente de Castanheira de Pera, em particular antigos alunos. Será uma graça poder contar com a sua disponibilidade!  
Para as visitas comuns conferir o site do Seminário. (Link 3).  

Por estes dias (17 de julho de 1843) Garrett foi a Santarém visitar o seu amigo Passos Manuel e de tudo o que viu e ouviu se «fez crónica». Ir em 2019 a Coimbra visitar o Seminário Maior e encontrar-se com o Padre Aurélio de Campos é, adaptando, fazer   também «Viagens na Minha Terra»!  


 Francisco H. Neves



Link 1 – Universidade


Link 3 – Seminário Maior 









In  O RIBEIRA DE PERA edição impressa de 30 de Junho de 2019