sexta-feira, 6 de novembro de 2020

 

 Crónica da Fraga

Ponte dos Esconhais 

As primeiras estradas e pontes nos decretos da monarquia constitucional

O despontar oficial do topónimo «Castanheira de Pera»

 

1880 | Estrada Moredos - Pedrógão.

«JUNTA GERAL DO DISTRICTO DE LEIRIA.  Faz-se publico que pelo espaço de vinte dias, contados sobre a data da primeira publicação d’este anuncio no Diario do governo, se recebem propostas em carta fechada dirigida ao presidente da commissão executiva delegada da junta geral de Leiria, para a arrematação do reconhecimento e dos estudos do campo e confecção do projecto do lanço da estrada distrital nº 66, comprehendido entre Morêdos e Pedrógão Grande, na extensão aproximada de 15 a 18 kilometros. Os proponentes abonarão com documentos a sua competência e idoneidade, e fixarão nas suas propostas o preço kilometrico dos re­feridos estudos e confecção do respetivo projeto, e bem assim o preço kilometrico do reconhecimento do mesmo lanço. As condições d’esta arrematação acham-se patentes na secretaria da repartição de obras publicas d’este distrito. Leiria e sala das sessões da junta   geral, em 14 de agosto de 1880. — A commissão executiva, Antonio Rino Jordão, José Ma­nuel Martins, Victorino da Silva Araújo».    

(DG nº 189 de 21/8/1880, página 2168).

Nota – Moredos (do arcaico moreda) terreno onde se cultivam amoras (Infopédia).  

 

1881 | Visconde de Castanheira de Pera (título)

«MINISTERIO DOS NEGOCIOS DO REINO. Attendendo aos merecimentos e qualidades que concorrem na pessoa de António Alves Bibiano, grande industrial do concelho de Pedrogão Grande; e querendo dar-lhe um publico testemunho da minha real consideração: hei por bem fazer-lhe mercê do titulo de visconde de Castanheira de Pera, em sua vida. O ministro e secretario d’estado dos negócios do reino assim o tenha entendido e faça executar. Paço da Ajuda, em 27 de janeiro de 1881. = REI = José Luciano de Castro».

(DG» nº 61 de 18/3/1881 – 1ª página a abrir).

Nota – O primeiro decreto a inserir o topónimo «Castanheira de Pera». Reinado D. Luis


1883 | Estrada Figueiró dos Vinhos - Castanheira de Pera

«MINISTRIO DAS OBRAS PUBLICAS COMMERCIO E INDUSTRIA. Tendo pedido a camara municipal do concelho de Figueiró dos Vinhos que a estrada que d’esta villa segue para Castanheira de Pera seja classificada como districtal e considerada prolongamento da estrada districtal nº 69; Tendo-se aberto o inquerito e instaurado o processo indicados nos artigos 11º e 12º da lei de 15 de julho de 1862 : Hei por bem, conformando-me com o parecer da junta consultiva de obras públicas e minas, determinar que a estrada districtal marcada com o nº 69 na tabella que faz parte do decreto de 9 de janeiro de 1867, passe a ser designada do modo seguinte: Nº 69 Castanheira de Pera, Figueiró, Alvaiázere, Albergaria (estação do caminho de ferro), Leiria… ). Os ministros e secretários d’ estado dos negócios do reino e das obras públicas, commercio e industria assim o tenham entendido e façam executar. Paço, em 15 de março de 1883. =REI. = Thomás António Ribeiro Ferreira. Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro».

(DG nº 62 de 19/3/1883, página 656).

Nota – Este terá sido o segundo decreto a inserir o topónimo «Castanheira de Pera».  

 

1884 | Ponte dos Esconhais

«MINISTERIO DAS OBRAS PUBLICAS COMMERCIO E INDUSTRIA. Sua Majestade El-Rei, conformando-se com o parecer da junta consultiva de obras públicas e minas : há por bem approvar, para efeitos da lei de 15 de julho de 1862, o projecto datado de 2 de março de 1884, relativo á ponte sobre a Ribeira de Pera, na estrada distrital nº 66, e que faz parte do lanço da mesma estrada, situado entre Moredos e Derreada, o qual foi approvado, para os mesmos efeitos, pela portaria de 22 de março de 1882, devendo-se empregar argamassa hydraulica na chapa da cobertura das abobadas, nas fundações e nos pés direitos até ao nível da estiagem, reforçando-se convenientemente a espessura dos muros das avenidas, e procurando dar á ponte direção perpendicular á corrente. O que se communica ao governador civil do districto de Leiria, para sua intelligência e para que o faça constar á junta geral do mesmo districto». Paço, em 28 de abril de 1884.  = António Augusto de Aguiar. Para o governador civil do distrito de Leiria»

(DG nº 98 de 1/5/1884, página 1103).

Nota – A «Ribeira de Pera» era a grande referencia nacional deste vale.    

 

1885 | Estrada Espinhal – Castanheira de Pera

«MINISTERIO DAS OBRAS PUBLICAS COMMERCIO E INDÚSTRIA. «Tendo a junta geral do distrito de Coimbra requerido que seja classificada de 2ª ordem uma estrada entre o Espinhal (estrada real nº 51) e Castanheira de Pera; e havendo-se aberto o inquérito e instaurado o processo, a que se referem os artigos 11º e 12º da lei de 15 de julho de 1862: hei por bem, conformando-me com a parecer da junta consultiva de obras públicas e minas, determinar que aquela estrada seja incluída sob o nº 66-A na tabella annexa ao decreto de 9 de janeiro de 1867, com a seguinte designação : Espinhal (estrada real nº 51), Castanheira de Pera. O presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d’ estado dos negocios da guerra, e interino dos das obras publicas, comercio e industria, e o ministro e secretario d’ estado dos negocios do reino, assim o tenha entendido e faça executar. Paço, em 2 de julho de 1885. =REI. = António Maria de Fontes Pereira de Melo. Augusto Cesar Barjona de Freitas». 

(DG nº 151 de 11/7/1885, página 1873).   

 Nota – Assim começou a «Estrada do Espinhal».

Francisco H. Neves

 

Link :

Textos originais. Negrito nosso. Ver «DG» (Diário do Governo) através da plataforma DIGIGOV.CEPESE.PT :   CASTANHEIRA DE PERA



(Texto in O RIBEIRA DE PERA edição impressa de 31 de Outubro de 2020)







segunda-feira, 5 de outubro de 2020

 




Castanheira de Pera in Pedrógão Grande durante 700 anos (1206/1914)

Que não nos anteriores 70 anos da herdade (1135/1206)

 

 

1). Território. O território do atual concelho de Castanheira de Pera (freguesias de Castanheira de Pera e Coentral) fez parte integrante do vizinho concelho de Pedrógão Grande durante mais de 700 anos. Desde 1206, ano do foral de Pedrógão em cujo termo W ficou, até à desanexação em 1914. Em rigor foram 706 anos, já descontando os dois anos transitórios (1895/1898) em que foi integrado no concelho de Figueiró dos Vinhos. É uma ideia a reter. Sempre são 700 anos de História deste espaço.      

 

2). Herdade. Coisa diferente se passou nos anteriores 70 anos da herdade (1135-1206= -71). Vários sítios veiculam a interpretação romântica segundo a qual a «herdade de Pedrógão de 1135» abrangia também o território das atuais freguesias de Castanheira de Pera e Coentral.

Negativo. A herdade de Pedrógão não incluía parcela alguma do território castanheirense. Nem incluía o território da vizinha freguesia de Campelo, território que aliás no ano seguinte (1136) ficou a foro de Miranda onde se manteve durante séculos, até ao liberalismo. Isto releva porque não adianta procurar distante da herdade um elemento confinante com a herdade (mosteiro).

 

3). Limites. Já discorremos sobre esta matéria. (Link 1). Hoje trazemos elementos complementares.  Recuperemos então os limites da «herdade de Pedrógão de 1135», latifúndio que D. Afonso Henriques doara a três nobres (Uzberto, Mónio Martins e Fernando Martins), por serviços prestados e a prestar.

 

Texto latino: «Habet enim terminos per montem qui vocatur Signum Salomon et inde per cimalias de Alvares ac deinde per cimalias de Sonieir et inde per cimalias Ameoso ac deinceps per cimalias de Squalos et inde per cimalias de Salzeda et per cimalias de Nadavi ac deinde ad monasterium de Algia quomodo concludit Algia cum Unzezar et inde unde primus incoavit».

 

Tradução: «Tem os seguintes limites: pelo monte que chamam do Signo Saimão, e pela cumeada de Alvares, e pelas de Sonieir, de Amioso, de Escalos, de Salzedas e de Ana de Avis; daí vai ao mosteiro de Alge, desce pela ribeira do mesmo nome até à confluência com o rio Zêzere e vai por este até ao ponto onde começou». Sendo que: «Amioso, Escalos, Salzedas (ou Sarzedas) e Ana de Avis são topónimos que se mantêm».

 

Atualmente (2020) existem meios eletrónicos de medição e demarcação de grandes propriedades agrárias. Todavia, vamos ainda assistir aos trabalhos dos antigos engenheiros agrimensores e sua cadeia do agrimensor.

 

4) Visto de Pedrógão. Posicionado na vila de Pedrógão Grande, o observador / intérprete verá o engenheiro agrimensor fixar o cabo da sua cadeia no monte sinal de Salomão (Penedo) e daí desenvolvê-la sucessivamente, pelo cume de Alvares, pelo cume Sonier, pelo cume de Amioso, pelo cume dos Escalos, pelo cume de Sarzedas,  pelo cume de Aldeia de Ana de Aviz, pelo mosteiro da ribeira de Alge,  pela foz da ribeira de Alge no Zêzere e  por este rio acima até ao ponto onde começou. Com assim ficando demarcado, nos seus contornos, o perímetro da herdade. Resultado: nenhuma parcela do atual concelho de Castanheira de Pera se mostra contida neste perímetro. Há só linhas confinantes. Outrossim não incluído o território da freguesia de Campelo.   

 

5) Visto da Castanheira.  À mesma conclusão chegará o observador / intérprete, quando posicionado na vila de Castanheira de Pera.  Daqui ele verá o engenheiro agrimensor fixar o cabo da sua corrente no pico do Trevim e daí desenvolvê-la, sucessivamente, pelo cume do Santo António da Neve - pelo cume da Safra – pelo cume da Gestosa – pelo cume das Fontes - pelo cume do Vermelho / Esqualos - pelo cume das Sarzedas / Salaborda e daí até ao cume de Aldeia de Ana de Aviz. Resultado: a herdade de Pedrógão situa-se a oriente desta linha, embora em parte confinante. Decerto não se duvidará que a cumeeira Trevim – Santo António da Neve - Safra – Gestosa – Fontes - Vermelho – Sarzedas - constitui uma ossatura, uma aba, uma falda integrante da Serra da Lousã. É Serra da Lousã. (Link 2).  E concretiza no terreno a teoria genérica dos autores que referem ir a herdade de Pedrógão «desde a Serra da Lousã até ao Zêzere».

 

6). Escopo da missão. Também por aqui se compreende a não inclusão na herdade.  É que doador e donatários eram nobres, militares. A herdade situava-se ao longo da margem direita do rio Zêzere, cuja defesa militar visavam.  Não seria do vale da ribeira de Pera que se vigiavam as margens do rio Zêzere…

Quanto ao mosteiro (monasterium de Algia), entre militares e naquele tempo, teria também função militar. Situar-se-ia num morro (entre Aldeia Ana de Aviz e a foz da ribeira de Alge) com mira para o rio Zêzere. “Algia” significava nesse tempo «ribeira fria» (do latino «algeo», ter frio).

A doação da herdade viera a ficar sem efeito (reversão), visto que voltou a ser objeto da doação de D. Sancho I a D. Pedro Afonso no ano de 1200.   Ainda não se conhece a motivação. Mas sabe-se que a partir de 1135 as ações militares se sucederam no terreno. A batalha de Ourique (1139) e, mormente, as tomadas de Santarém e Lisboa (1147) de que resultou significativo aumento do território. Os três nobres donatários da herdade estavam dentre «os mais dilectos cavaleiros» de D. Afonso Henriques. Decerto o acompanharam nessas operações. Terão sido compensados e investidos noutros cargos militares. E desligados da missão Pedrógão. É o que se afigura mais provável, mas obviamente, carecido de confirmação.

 

7). Herança. Apesar de não integrar a herdade o território castanheirense acabou por ser «herdeiro» da herdade.

Desde logo a linha divisória entre os dois concelhos (Castanheira de Pera / Pedrógão Grande). A linha divisória 2020 é sensivelmente igual à linha divisória 1135.

Depois o topónimo Sarzedas. Se era povoado ou local rústico não se sabe, mas constitui hoje (2020) a menção escrita mais antiga conhecida na toponímia concelhia.

Do tempo da herdade ficou ainda a «estrada de Santarem», trilho militar porventura de relevo aquando das ações militares a Santarém (1147,1184). (Link 3).

 

8. Foral.  A «estrada de Santarém» com a sua carga militar envolvente e a ribeira de Pera com a sua bacia hidrográfica unificadora terão porventura constituído factos de relevo na chancelaria régia  - D. Sancho I e  D. Pedro Afonso - para a inclusão deste espaço (depois freguesias de Castanheira de Pera e Coentral) no foral de Pedrógão de 1206, em cujo termo W se manteve  durante mais de 700 anos.

 

Francisco H. Neves  

 


 





Link 1 - O Ribeira de Pera  


Link 2 =  Falda

 

Link 3=  O Ribeira de Pera   











sexta-feira, 31 de julho de 2020





O cruzeiro do adro e a sua voz de pedra 










No dia 17 deste mês de Julho de 1843, Almeida Garret partiu de Lisboa com destino a Santarém, a convite do seu amigo Passos Manuel, em casa de quem ficou hospedado durante uma semana.  Visitou a cidade e a Ribeira e, como era sua tenção, «de tudo quanto viu e ouviu, pensou e sentiu» fez crónica. Viagem no terreno e viagens mentais pela arquitetura, história, política, religião. Resultado: as VIAGENS NA MINHA TERRA.
«Santarém é um livro de pedra» - escreveu Garret no cap. XXIX.
Certamente. E vários volumes!  
Apreciando e transpondo a metáfora, dir-se-á que Castanheira de Pera também possui, além do mais, um pequeno livro de pedra: o cruzeiro paroquial (e diocesano).  
Monumento velhinho, raramente incluído na lista dos monumentos locais, magoado das intempéries e da indiferença, contudo ele ali permanece de pé, disponibilizando graciosamente (sem pedir moeda) a sua mensagem. 








Na base uma plataforma quadrangular de pedra com três degraus e gatos metálicos de junção e consolidação e, sobre ela, centralizado, um plinto octogonal de pedra, depois a coluna e a cruz no alto. 
Em redor do plinto esta breve cronologia histórica:        


·         1139 Batalha de Ourique
·         1140 Recontro de Valdevez

·         1249 Conquista do Algarve
·         1290 Fundação da Universidade

·         1340 Batalha do Salado
·         1385 Batalha de Aljubarrota

·         1415 Conquista de Ceuta
·         1498 Vasco da Gama descobriu a India por mar

·         1500 Pedro Alvares Cabral descobriu o Brazil
·         1580 10 de Junho faleceu Luiz de Camões

·         1608 Nasceu Padre António Vieira
·         1640 Restauração da Independência

·         1782 Fundação da R. Casa Pia de Lisboa
·         1810 Batalha do Buçaco

·         1940 8º Centenário da Fundação
·         1940 3º Centenário da Restauração.

·         1502 | Freguesia de São Domingos | 15 de Novembro
·         1914 | Inauguração do concelho de Castanheira de Pera | 4 de Julho 



Estas últimas datas (1502 e 1914), estão gravadas por baixo do plinto, no degrau cimeiro da plataforma.  Seria interessante conhecer algo mais sobre a história deste «livrinho de pedra», porventura a «ficha técnica» da «1ª edição». Havendo.
Quanto à cronologia histórica é geralmente conhecida e encerra numa data concelhia: 4 de Julho de 1914 a inauguração do concelho de Castanheira de Pera.
Significa isto que, no dia 4 deste mês de Julho 2020, passou o 106º aniversário da inauguração do concelho.  Gravado na pedra!  



                                                                                                          Francisco H. Neves  







(Texto  também in 


edição impressa de 31 de julho 2020).



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quinta-feira, 2 de julho de 2020





Escola Primária da Viscondessa de Nova Granada

Portaria da denominação oficial (1932) 



Foto in «Américo Costa, Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular, Vol. IV/1483, edição 1934»


Os Viscondes de Nova Granada ofereceram ao Estado um edifício destinado a escola primária elementar, sexo masculino, sito na vila de Castanheira de Pera. E o Governo deliberou, em conselho de ministros, dar-lhe a denominação oficial de Escola Primária da Viscondessa de Nova Granada, conforme portaria nº 7.339, in «DG», Nº 107, «I-S» de 7/5/1932, (Link 1).

José Alves Barreto, (1859-1933), nasceu na vila de Castanheira de Pera.  Cedo partiu para o Brasil, onde criou empresas, contraiu casamento e fez fortuna. Praticou actos de beneficência no Brasil e aqui na sua terra natal. 
Agraciando, o rei D. Carlos, por decreto de 21/2/1901, concedeu-lhe o título de Visconde de Nova Granada.

Nova Granada (SP) é município desde 1925, inserido numa região onde a viscondessa Ana Miquelina Alves Barreto, (1863-1943), fora abastada proprietária.  Mas foi em Osasco, grande município da área metropolitana de São Paulo, onde José Alves Barreto desenvolveu intensa atividade comercial e industrial. E ficou na toponímia. Em Osasco ainda hoje se circula pela Avenida Visconde de Nova Granada, aliás, ampliada e beneficiada. (Link 3).  






Recentemente (2016) a escritora osasquense Laura Leal publicou um livro intitulado «Da Argila à Vila – Memórias de Osasco», Editora Baraúna, (ISBN 978-85-437-0630-6), parcialmente on line, onde a páginas 122 a 126 faz referência à atividade empresarial do Visconde de Nova Granada, (Link 2).

O casal Visconde jaz num mausoléu em Castanheira de Pera. Os seus bustos ficaram erigidos no jardim do Lar São José.  Para completar o seu perfil existem atualmente sítios on line. Abaixo a indicação de dois.  
  
Nota final – Nos anos cinquenta - da 1ª à 4ª classe – fomos um dos alunos a frequentar a Escola Primária Viscondessa de Nova Granada. A minha gratidão aos doadores. In memoriam. 
Francisco H. Neves



Links:







(Texto  também  in 


edição impressa de 30 de Junho 2020)





domingo, 3 de maio de 2020









«A neve e a estrada de neveiros entre 
a Serra da Lousã e a Barquinha

Uma história inacreditável, mas autêntica»




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«VN Barquinha | “Apitos, assobios, guloseimas e até ‘bichas’ com a chegada da neve a Lisboa”, por Fernando Freire».
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O texto seguinte é da autoria do Dr. Fernando Freire, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História local, publicado no dia 2 de Maio de 2020 no jornal on line  medio tejo.net

  






Poço de neve do Coentral

Fotografia de João Almeida Fotografia - @joaoalmeidaphoto



«Os Filipes (de Espanha), que tanto nos levaram, deixaram pelo menos cá três modas: a dos trajes negros, a dos coches e a da neve...

Versa a presente crónica sobre esta última moda, “a neve”. Parece ser muito antiga, devendo-se possivelmente aos árabes a iniciativa de a comercializar.

“A neve vendia-se, então, nas ruas da capital à cabeça dos vendedores, homens ou mulheres. Apitos ou assobios anunciavam aos encalmados a refrescante mercadoria... o gosto de tomar neve fez-se moda. Água gelada, chiando nos pucarinhos de barro, era uma gulodice cortesã das tendas dos doceiros da Rua Nova da Confeitaria, da Rua do Saco, das antecâmaras do Paço e dos salões fidalgos. O fornecimento fazia-se de maio a setembro, mas os contratadores faltavam amiúde às obrigações tomadas. ... Em 1671, o neveiro, António Correia deixou de a vender. Era tanta gente que lhe assaltava a loja, que teve de vir um soldado guardar-lhe a porta para manter os compradores a respeito… desconfio que foi a neve que iniciou em Portugal a instituição da “bicha”. Já nesse tempo se usava gelo para tratamento de doentes com obrigação de fornecê-lo para o Hospital de Todos os Santos.

O sorvete, que foi uma glória do velho Martinho (da Arcada), já se apreciava igualmente...

Os sorvetes vendiam-se nem em copos ou taças de vidro como hoje, mas em xícaras. O limão era mais barato o de almíscar era caro, o de coral era caríssimo.” 1

Em Portugal, o ofício dos neveiros terá conhecido o apogeu durante o século XVIII, mas há notícia da atividade dos contratadores da neve desde os princípios do século XVII certamente devido à visita do monarca Filipe III de Espanha.

Outrossim, Tirso de Molina, autor dramático espanhol, que viveu de 1583 a 1648, referindo-se a Lisboa, compôs no "Burlador de Sevilha": nieve da serra da estrela que por las calles apitos puesta sobre las cabazas la vendem …”

Certo é que com a chegada dos Reis espanhóis ao trono de Portugal a moda de consumir neve pegou na capital do reino. A neve era a designação corrente para sorvetes, carapinhadas e outras iguarias do género. Mas também, decerto, para a conservação e refrescamento de outros bens de consumo do ser humano e utilização na saúde pública.

As Serras da Estrela e da Lousã, devido à sua localização, eram territórios de grandes nevões. Esta circunstância foi aproveitada no final do Séc. XVII e no Séc. XVIII, para no local proceder à sua recolha e armazenagem, com o objetivo de chegar ao consumidor final, à capital do Reino.

Depois da sua apanha, a neve, era comprimida em poços cobertos de xisto, covões abertos em fraguedos serranos, com uma porta voltada a nascente para que o efeito dos raios solares fosse diminuto sobre o designado neveiro. Toda a área de armazenamento era coberta com palha.

O responsável pelas infraestruturas locais de depósito da neve, conservação, manutenção e transporte da serra até aos portos do tejo, de Barquinha até Lisboa, era o Neveiro Real.




Lanches, Cerveja e Neve - Rua da Prata, Lisboa, Pastelaria Pomona



O gelo produzido na serra da Lousã (Coentral e em Santo António da Neve), era transportado, por via terrestre, em cavalgaduras ou carros de bois, e em barcos diários, os designados “barcos da neve”. Lembro que os transportadores tinham prorrogativas reais nas várias portagens e, inclusive, preferência nas travessias fluviais entre o porto da Barquinha e de Lisboa.

Na altura do calor a neve era fendida em grandes blocos, muito bem embrulhada em palha e isolada do calor exterior para que não derretesse pelo caminho.

“O gelo - amontoada em pequenos montículos será depois acartada em cestas, às costas, até ao poço de gelo mais próximo. Nada é deixado ao acaso, para que o gelo resultante seja da melhor qualidade. Limpo, cristalino e sem impurezas. Liberto de gostos e dissabores… Há que arrebanhar a maior quantidade possível de neve enquanto se mantém solta e límpida, e depois guardá-la naquelas cavidades profundas, onde será compactada até se transformar em gelo. Tapado por palha e fetos, o gelo permanecerá ali até ao final da primavera, início do verão, altura em que será então cortado em grandes blocos e transportado em carros de bois, pela serra, até Constância e Barquinha de onde embarcará, rio abaixo, desta feita até Lisboa, aos armazéns do Martinho da Arcada, e outros de menor nomeada, para deleite de senhores e senhoras”.2








Fotografia da Hemeroteca Municipal de Lisboa 


Face à procura do bem comercial gelo e às difíceis condições de acesso nas Serras da Lousã e da Estrela, os contratantes começaram a dar privilégio à Serra de Montejunto, às portas da capital. Em 1741, foi aí construída a Real Fábrica do Gelo para colmatar as falhas de fornecimento da Serra da Lousã e da Estrela. Quando chegavam os dias mais frios enchiam-se os tanques com água e esperava-se que, durante a noite, o frio a congelasse, formando o gelo. Posteriormente, era embalado e transportado por animais devido ao declive da serra. Quando existiam condições no relevo passava para carroças que o levavam até aos «barcos da neve», do porto da Vala do Carregado, e seguiria, via fluvial, até à capital do reino. A fábrica esteve em atividade até finais do século XIX.

A procura era imensa e apesar do “reforço” da neve da Serra de Montejunto muitas vezes, devidos às condições climatéricas dos anos mais quentes, ela escasseava ou esgotava na cidade de Lisboa.

Vejamos dois exemplos que recolhi: “Joaquim Coelho de Ataíde, arrematante do contrato do fornecimento da neve, participa ao público, que a mesma neve em rama está à venda desde o dia 13 do corrente mês de Maio no armazém n.° 290, da rua dos Ourives do Ouro junto ao Terreiro do Paço, e do mesmo dia a manufatura na loja de Bebidas do Rocio, conhecida pela denominação do Nicola, e se porá da mesma sorte à venda sobredito armazém da rua dos Ourives do Ouro do dia 21 do corrente mês em diante. Pede ao mesmo tempo a todos os Senhores, que carecendo de porção maior de arroba, fação aviso no sobredito armazém quinze dias antes, não obstante a condição do contrato ser de dez dias; por quanto tendo caído muito pouca neve na Serra desta Província, vem a ser indispensável fazê-la conduzir da Beira.” 3

“Os contratadores da neve previnem ao público, que no dia 25 do corrente Agosto acabou a venda do mesmo género, por motivo da sua colheita este ano ter sido muito escassa.” 4

Segundo a "Gazeta de Lisboa", vendia-se neve, em 1792, no botequim da "Casa da Ópera" da Rua dos Condes e, em 1793, também esse produto natural se vendia no Largo do Rato, na loja de José Rodrigues Ferreira. Já no século XIX, há várias alusões às lojas que vendiam neve, sorvetes e demais doces gelados ... Em S. Roque, vendeu neve o botequim do Tavares. No Rossio, eram servidos gelados na loja de bebidas do "Madre de Deus". E outros cafés e botequins, como o "Marrara", o "Minerva das sete portas", o "Toscano", o "Nicola" e o "Grego" venderam neve - uns desde o dia 1.º de Maio, outros desde o dia do Corpo de Deus, como se pode ver nos anúncios que então publicavam na imprensa. 5

Registos mostram que, em 1782, se vendia neve no Martinho da Arcada, que em tempos se chamou "Casa da Neve" por isso mesmo. Há outras notícias da existência em Lisboa de poços destinados a armazenar a neve. Houve poços no bairro da Graça e até a torre Norte do Castelo de São Jorge, do lado da Calçada de Santo André, sofreu obras para ser transformada em depósito de neve. 6





Movimento fluvial na Barquinha – Fotografia do Arquivo Municipal



Mas existiu uma estrada entre a Barquinha e Segade – Lousã?

No nosso território existiu a antiga estrada romana que ligava Scalabis (Santarém), Sellium (Tomar) e Conimbriga (Coimbra). Na crónica de Dom Fernando refere-se que o infante Dom João partiu um dia de Alcanhões, teria passado pela Cardiga, a caminho de Tomar, menção que confirma a existência de uma estrada que ligava ambos os termos. Depois de chegar a Tomar parte ele para Coimbra, passando por Espinhal, onde dormiu, Foz de Arouce (a 7 Km de Segade) e Almalaguez 7

Compulsando a legislação régia encontramos relatos de 10 de setembro de 1861, pág. 328, do Diário de Lisboa, onde é reforçada a verba para a manutenção da estrada Barquinha, Thomar, Miranda do Corvo e Foz de Arouce.

Em 1909, a estrada real n.º 51 ligava a Barquinha a Segade, e ali procede-se à construção de um lanço entre Semide e Pedreira, conforme imagem abaixo :


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Alexandre Herculano, nomeado comissário régio para a inventariação do património documental do País, disperso, abandonado e a saque nos cartórios dos extintos conventos, inicia a sua peregrinação no porto da Barquinha, no dia 14 de Junho de 1853. A comitiva faz-se a caminho a cavalo, como meio de transporte convenientemente indicado para o vencimento dos escolhos e dificuldades das localidades a percorrer. A comitiva quando chega à Lousã, desloca-se à serra, provavelmente em demanda de um conventinho ali perdido e é então que depara com os poços nas proximidades, destinados à recolha da neve.

“Dia 20 de Julho: Viagem à serra da Lousã. Ajunta-se a caravana na aldeia do Fiscal, nas faldas da serra. Vista cortada pelo nevoeiro para o norte. Passeio até à montanha da neve. Os depósitos – uma ermida; absurdo de um templo no cume de uma montanha. As duas montanhas estão unidas por uma lomba de onde nascem duas ribeiras em sentido oposto para poente e nascente e que divide os três concelhos de Lousã no noroeste e norte, o de Góis ao nascente e o de Figueiró ao sul e sudoeste. As montanhas só de mato rasteiro. Os poços de neve num recôncavo: como se vai derretendo em volta dos poços e dando uma fonte perene: como a apanham mulheres: chegou este ano em Fevereiro, a 14 pés de altura no recôncavo. É transportada em carros para a Barquinha. Modo singular de descerem os carros com mato do alto da serra: o juntar no barracão junto ao poço e o sorvete preparado ali.”  8

Segundo o mesmo historiador foi público até aos anos setenta, a presença de um marco da estrada de neveiros entre a Barquinha e Segade (Miranda do Corvo). Mais, precisamente, o 1.º marco perto da agência da Caixa Geral de Depósito (junto designado prédio do ferro de engomar) e o 2.º marco era presente antes de chegarmos à antiga cerâmica Moinho de Vento. Em tal documento físico estavam inscritas as distâncias e as designações das duas localidades.

Esta estrada real ou de neveiros, era igualmente frequentada para muitas outras atividades sem ser a neve. Lembro que o porto da Barquinha, nos primeiros anos do século XIX, tinha um enorme movimento comercial. Por ali passava todo o comércio que ia e vinha das Beiras para Lisboa e de Lisboa para as Beiras, pois as populações que ficavam entre o Zêzere e Mondego – por não haver ponte – faziam por este porto o seu comércio.

As mercadorias transacionadas eram, essencialmente, neve, madeira, sal, arroz, azeite, peixe, carne e tecidos de algodão.

Era tal o apogeu que só a exportação do concelho de Ourém para o porto da Barquinha “de azeite, aguardente e madeiras, era em transporte de carros e cavalgaduras, e o cálculo com respeito aos carros, às cargas, e seu valor, foi deste modo estimado com respeito à estrada, somente do Furadouro ou na direção da Villa da Barquinha, porto da via fluvial do Tejo mais frequentado. Passavam uns 50 carros por semana levando cada um termo médio 4 dúzias de tábuas de solho, dando resultado no ano, 2600 carros, com 10400 dúzias de tabuas, sendo o preço da venda de cada dúzia, 1$000 réis, é valor transportado do concelho para a Barquinha de 10 400$00 réis. Não é contada a madeira conduzida por outras estradas, ou seja, em direção à mesma Villa, ou para outra parte e a que é conduzida em cavalgaduras, etc.” 9

Naquele tempo, segundo factos históricos, entravam no nosso concelho milhares de carros de bois por ano, facto demonstrativo da pujança comercial de Vila Nova da Barquinha.

Verificamos no relato acima que só do Furadouro (Ourém) chegavam à Barquinha 2600 carros por ano. Deste movimento mercantil se socorreu o 1.º presidente da câmara da Barquinha, Manuel Henriques Pirão, nascido na Sertã, para em 1837, introduzir portagens à entrada da Barquinha cobrando 20 réis por carro de bois. Assim, equilibrou as finanças municipais e, com essa receita, construiu os Paços de Concelho da novel Vila.

Certamente muitas das pedras daquele edifício são resultado do esforço de muitos trabalhadores neveiros das povoações de montanha, bem como, de almocreves, arrais e marítimos.  

Com a introdução da refrigeração artificial, em meados do Séc. XIX, pararam as memórias e os movimentos regulares no tocante a tão frescas matérias naturais, entre outras, de sorvete de leite e de morango feitos à base de neve.

O passado ficou para trás. A estrada real n.º 51 Barquinha-Segade deixou de ser a de neveiros, mas quão agradável foi descobrir num marco de estrada à saída da Barquinha o testemunho dos nossos antepassados e a alma deste lugar que por força das circunstâncias me acolheu».


Poços de neve em Espanha e Itália




                                                                                  FERNANDO FREIRE 





Bibliografia 


·        1 Matos Sequeira, da Academia das Sciências. Feira da Ladra, n.º 1, 1931. 

·        2 Miranda, Emílio Gouveia. Os Autos da Barquinha - Gelo por sal, Edições Mahatma, janeiro de 2014


·        3 Diário do Governo, n.º 119, de 20 de maio de 1823  


·        4 Gazeta de Lisboa, n.º 201, Sábado 27 de agosto de Ano 1825, 
·        5 Machado, Herlander. Revista da Armada, n.º 93, 1979
·        6 Padilha, Cariana. A fábrica das neves, Jornal Publico, 12 de Janeiro de 2013
·        7 LOPES, F. Chronica de El-Rei D. Fernando, vol. II. Lisboa: Bibliotheca de Classicos Portuguezes, 1895
·        8 Roldão, António. A neve e o porto da Barquinha, Jornal Novo Almourol, n.º 389, Setembro, 2013

·        9 Elyseu, José das Neves Gomes. Esboço histórico do concelho de Vila Nova de Ourém, Typografia Universal, Lisboa, 1868».



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Trabalho da autoria do Dr. Fernando Freire, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local, publicado no dia 2 de Maio de 2020 no jornal on line :  medio tejo.net